Meu querido,
É a primeira vez em muito, muito tempo - um ano e meio, talvez! - em que senti necessidade de te escrever. E que estranho é saber que ainda sinto vontade de o fazer, depois de todo este tempo.
Durante quatro anos e meio, escrever sobre ti e para ti - quando me lias e quando nem sabias que eu escrevia - era tão natural para mim quanto respirar. Às vezes, quando as coisas estavam mesmo tristes e o mundo me pesava sobre os ombros, era mesmo mais fácil escrever-te do que respirar. As palavras saíam sempre com uma naturalidade que já nem me espantava - e Deus sabe como agora valorizo isso, porque já não acho tão fácil passar para um texto tudo aquilo que sinto. Mas são incontáveis os cadernos que enchi a falar de ti, e as folhas soltas que guardo numa gaveta, cartas que nunca leste. Eras o meu mundo.
E depois, num momento que nem eu própria consigo precisar, tomei a decisão mais difícil, aquela que durante anos a fio nunca tinha sido forte o suficiente para tomar: não me fazias bem e sabia que mais cedo ou mais tarde ia ficar completamente louca se continuasse a ouvir o meu coração e não a razão. E com muito esforço consegui afastar-me e... curar-me. Reabilitar-me.
De facto, "reabilitação" é a palavra mais certa. Durante quatro anos e meio, foste droga. Pura droga. Um vício incrível de que não me conseguia libertar nem que tivesse querido - e verdade seja dita, era algo masoquista e preferia continuar viciada do que deixar-te ir. E cada dia que passava sem nos vermos, sem nos falarmos, sem nos tocarmos, era a loucura completa. Um frenesim de lágrimas e recriminações, que guardava só para mim porque não era capaz de te exigir mais, e eu merecia mais. Mas tal e qual uma drogada, não conseguia ver isso e só encontrava repouso, e a tão desejada felicidade, quando tinha a minha heroína, a minha cocaína... tu.
Toda a gente me dizia que só me fazias mal e que tinha de me libertar. Todos os dias havia alguém que me perguntava como era capaz de aguentar aquela situação louca. Todos os dias havia alguém que me incitava a deixar de te querer, a esquecer-te e andar com a minha vida para a frente, sem nunca mais olhar para o passado. E todos os dias alguém se indignava comigo e me chamava casmurra por eu não o querer fazer. Porque muito pouca gente percebia a grandeza do que eu sentia por ti - na verdade, muitas vezes acho que nem tu próprio percebias o quanto eu gostava de ti. Mais do que de mim mesma. Eras mais importante para mim do que eu própria, e nada é pior do que esquecermos quem somos por causa de outra pessoa.
Devo ter tendência para me apaixonar por pessoas que acabam por me levar à loucura, não devo? Depois de ti houve várias pessoas, mas só uma teve verdadeira importância, comparável à tua. Porque, tal como tu, foi capaz de me endoidecer o suficiente para me fazer esquecer de mim mesma ao ponto de me apaixonar mais por ele do que por mim e, tal como tu, levou-me do paraíso ao inferno num estalar de dedos. Com a diferença que a ti, deixei que o fizesses durante muito tempo, porque quis lutar por nós. Com ele, nem tive essa oportunidade... e se a tivesse tido, provavelmente chegaria aqui hoje e diria que tinha sido tempo perdido. As coisas acontecem por uma razão, tenho a certeza disso, e não estávamos destinados. Nem eu e ele... nem tu e eu. Por muito que eu não o quisesse ver.
Mas neste momento não interessa, de todo, fazer qualquer tipo de comparações porque as duas histórias não podiam ser mais diferentes, tirando o seu final... mas não foi para fazer comparações que escrevi este texto. Na verdade, nem eu sei porque me apeteceu pegar numa caneta e neste caderno esquecido há tanto tempo, e escrever(-te) sobre tudo e sobre nada, a ti, a quem foram escritos tantos, tantos outros textos destes.
Sabes, eu tenho um hábito que ainda não decidi se é benéfico ou prejudicial: esqueço-me com demasiada facilidade do mal que me fazem e da dor que os outros me provocam, por gostar demasiado deles. E tu és o epítemo desta minha mania. Porque se olhar de forma objectiva para nós dois e aqueles quatro anos e meio, o que devia sobressair, em teoria, eram os momentos maus, as lágrimas infinitas em que quase me afoguei tantas vezes. Mas não. Lembro-me com muito mais facilidade dos momentos bons que partilhámos, da felicidade estonteante que me preenchia e durava às vezes uns dias, outras apenas umas horas, mas que me dava força para continuar a lutar por aquilo que eu queria. Aquilo que eu mais queria... a única coisa que eu realmente queria.
Não sou capaz de perder muito tempo a pensar nas coisas más, porque me levam a um tempo e a uma pessoa que não gosto de pensar que era eu. E não sou capaz também porque no meio de tudo, surge-me sempre o teu sorriso enorme - e quantas vezes eu terei dito que era o sorriso mais bonito do mundo? - e os teus olhos de chocolate presos em mim, o teu habitual ar trocista, uma qualquer boca sempre pronta a ser lançada só para me arreliar.
E nada dói. Já nada dói, porque estou curada da doença que eras e não te dou poder para me magoares de novo. Já nada dói, e é por isso que consigo agora olhar para trás e só ver o teu lado bom - ainda que isso não seja propriamente correcto.
Mas às vezes ainda tenho saudades. Saudades tuas, e da tua parvoíce, das tuas mãos e da tua boca. Saudades minhas e da menina inocente que eu era contigo. Mas, sobretudo, saudades da maneira como me sentia quando estavas comigo. E saudades de sentir algo tão intenso, tão total, tão inalterado, tão essencial, tão completamente puro como era o amor que eu sentia por ti. Era loucura, êxtase, sofrimento e paixão em estado natural, genuíno... uma mistura explosiva de coisas que nunca tinha experimentado antes, e que por isso se incendiava com tanta facilidade, para o bem e para o mal. Era tudo. Eras tudo.
Foste o meu primeiro amor, e o primeiro em tantas outras coisas. Tiraste de mim tudo o que havia para tirar, queimaste tudo tal e qual um incêndio assustador, e quando acabou fiquei feita só de cinzas. Sem saber como renascer, como voltar à vida, sabendo que não ias estar presente ou eu teria de morrer por ti outra vez.
Ainda hoje não sei como, mas acabei por ser capaz de te ultrapassar - não gosto de dizer esquecer, porque nunca o hei-de fazer por mais que viva. E a verdade é que grande parte daquilo que sou hoje se deve ao que tivemos e ao que eu senti por ti, e à maneira como tudo aconteceu. As coisas boas, sim, mas sobretudo as coisas más, os traumas e os medos... tudo, tudo tem a tua marca por todo o lado.
E com isto chega ao fim a minha recém-descoberta necessidade de (te) escrever. Há três anos também te escrevi uma longa carta, lembras-te? E por mais incrível que pareça para mim, que me lembro sempre de tudo - como tu bem sabes - não sou capaz de me lembrar das palavras que despejei para essa carta. Mas quaisquer que elas tenham sido, foram as certas: foi graças a elas que voltámos a falar depois de uns meses bem difíceis, e foi graças a ela que aquilo a que eu chamo a "segunda parte" da nossa história se escreveu. Hei-de me lembrar sempre dela como um acto de coragem que resultou ainda melhor do que eu pretendia - porque eu só me queria libertar do peso das palavras nos meus ombros, e acabei por ganhar muito mais.
E depois de tudo, espero que percebas porque é que por vezes me sinto tão reticente em deixar-te aproximar. Porque não me esqueço de nada, e tenho medo de que de alguma maneira sejas capaz de voltar a quebrar as barreiras que eu tão cuidadosamente construí e que me voltes a afectar. E por mais que às vezes eu me sinta tentada a deixar que isso aconteça, só para ver como seriam as coisas agora, não tenho a certeza que me fizesse bem e não mal, como antes. Ainda assim, não tenho um único arrependimento naquilo que te diz respeito, nem um único.
Assim termina este momento de loucura - é só mais um, e tão pouco comparado com outros pelos quais passei! Porque por ti, antigamente, era capaz de ir ao fim do mundo e voltar e fazer qualquer coisas. Este texto, comparado com isso, não é nada.
Para o bem ou para o mal, nunca me esqueço de nós, todos os dias estamos presentes num qualquer cantinho da minha mente. E continua a ser mais que natural escrever para ti.
O fim, já tu o sabes...
« you're so fuckin' special,
I wish I was special... »
10 de Agosto de 2013, 05:13
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