Seis semanas se passaram desde o primeiro momento, o primeiro contacto, o primeiro olhar, o primeiro sorriso, o primeiro toque, a primeira impressão. Nessa noite uma borboleta solitária decidiu começar a manifestar-se no meu estômago, e foi tão estranho saber que o meu corpo ainda conseguia reagir daquela maneira à presença de alguém, tanto tempo depois da última vez. Mas foi ainda mais estranho que aquilo tivesse acontecido naquele momento, por aquela pessoa em particular, uma pessoa com quem nunca antes me tinha cruzado em toda a minha vida e que nem esperava conhecer. E nos dias que se seguiram, aquela impressão estranha, aquele interesse inicial, ficaram às voltas na minha cabeça, às voltas e às voltas por mais que eu não quisesse debruçar-me sobre o assunto.
Seis semanas se passaram sobre essa noite, e com os dias a passar, começou também a passar aquela sensação de estranheza e de confusão. Já não me preenchia os pensamentos e comecei quase a acreditar que tinha sido apenas uma invenção da minha parte, uma tentativa qualquer de sentir alguma coisa nova, e que já não sentia há tanto tempo. Interesse.
E quando esta noite me apercebi de que iria confirmar - ou não... - aquela confusão toda, o meu primeiro sentimento foi de medo. E depois nervosismo. E depois saí do carro, engoli a ansiedade e fui calmamente esperar... e esperar, nem sabia bem pelo quê. Esperar ter uma boa noite, sem criar qualquer expectativa sobre outras coisas. Esperar divertir-me, sem querer mais do que isso.
Seis semanas se passaram. Mas voltou tudo. Voltaram as borboletas - e não foi só aquela única que tinha aparecido na outra noite, desta vez veio acompanhada por muitas amigas... E voltaram os olhares. Voltaram os sorrisos - adoro pessoas com sorrisos grandes, sorrisos quentes, sorrisos perfeitos que se lhes espalham pela cara e a nós, nos corações! Voltaram os toques subtis. Sobretudo esse contacto ao mesmo tempo aconchegante e perturbador, que nem sei interpretar. Por um lado, acho que é propositado, que poderia ser facilmente evitado se as duas pessoas não se quisessem tocar, ainda que só levemente, com cuidado. Por outro lado, temo que seja só uma ilusão do meu cérebro. Que seja só uma mera coincidência e que eu, por me sentir confusa e estranha, queira ler mais nela.
Não sei. E também não sei se quero saber.
Tenho saudades de sentir, confesso. Tenho saudades de estar nervosa, confusa, ansiosa, estranha, tentada, tocada, parva e apaixonada. Tenho saudades de ter alguém que me faça sentir coisas. Tenho saudades de ter alguém que me faça sentir necessidade de escrever, essa necessidade que só me vem quando tenho realmente algo em desassossego dentro de mim. Tenho saudades de sentir, sentir a sério.
Mas também tenho medo. Porque tenho cicatrizes, e parecendo que não, são recentes. A pele que se formou ainda é frágil. Qualquer toque mais brusco, mais bruto, leva-a a voltar a abrir-se em ferida. Tenho medo de sentir, porque sentir leva-me a perder o controlo sobre mim, leva-me a ter de incluir outras pessoas nas contas que faço com a minha vida, e isso é assustador. Tenho medo destas borboletas estranhas que me voltaram a invadir, tenho medo do nervosismo que sinto, tenho medo do sorriso que trouxe comigo para casa preso na minha mente, tenho medo da luz quentinha que se me acendeu no coração esta noite. E tenho, sobretudo, medo de estar a ver coisas onde elas não existem.
Por isso não vou pensar. Não vou pensar nisto, não vou tentar interpretar nada, não desta vez. Vou-me só deixar levar. E o que tiver de ser, há-de ser.
Throw your dreams into space like a kite, and you do not know what it will bring back.
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