Acho que é natural e comum, quando se tem 10 anos, desenvolver umas certas "paixonetas" por alguém que nos é inacessível. E, geralmente, mais velho que nós. Eu não fui excepção.
Andava no 5º ano, tinha acabado de entrar para uma escola nova. Grande. Assustadora. E havia lá um rapaz, que passava por mim todos os dias, em quem eu não conseguia deixar de pensar. Eu tinha 10 inocentes anos, ele 14. Eu era super tímida, e ele super popular. Eu era invisível. E ele tinha namorada.
E, claro está, nunca falámos. Mas houve um dia em que ele se apercebeu da minha existência - cerca de três meses depois de eu ter decidido que ele era o rapaz mais giro que eu já tinha visto em toda a minha vida. E para contar esse episódio, nada melhor do que usar as minhas próprias palavras, escritas há mais de sete anos atrás, num dos meus queridos cadernos.
« Domingo, 15/02/2004
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Ontem foi dia dos namorados e, durante a semana, na secretária da D. Ana estiveram duas caixas vermelhas, uma dizendo "2º ciclo" e a outra "3º ciclo". Podíamos lá pôr cartas de amor, desde que respeitássemos 2 ou 3 regras. Descobrimos isso na 3ª feira. Durante a aula de Estudo Acompanhado, no tempo livre, a S. e a S. escreveram uma carta p/ o L. (em meu nome). Eu gostei da carta, por isso pus na caixa do 3º ciclo. Isto foi febre total!!! Por toda a escola se vêem pessoas com cartas, envelopes, rosas, etc... »
« Quinta, 19/02/2004
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Ah! Por falar em L., ele recebeu a minha carta, tenho a certeza! Na 3ª, nos bancos, eu e a V. estávamos sentadas a ver as imagens do tlm dela, quando ele chegou e mostrou um papel pautado aos amigos. Tinha nitidamente os corações desenhados pela SC... era a minha!!! Depois, dali a pouco, ele perguntou a uma miúda sentada perto dele: "Chamas-te Inês?". Eu comecei a sentir-me muito vermelha, e disse à V.: "Estou mal disposta. Vamos lá fora?". Ela assentiu e saímos, ainda a tempo de ouvir "Chamas-te Inês?". Cá fora, ela disse-me: "Cheguei a pensar que estavam a falar para ti." Eu ñ respondi e continuámos a andar. Entretanto, a SC chegou e eu escapei-me e contei-lhe tudo. Ela andou para a frente e para trás lá no corredor, mas eu ñ tive coragem para entrar e "enfrentá-lo". Mas depois chegou a hora de ir para a aula e tive mesmo de ir. E quando entrei ele olhou logo para mim, e os amigos dele também, todos. Começaram a falar e a apontar. Já sabem que sou eu. E agora?! »
Sim, sim, eu sei. Eu escrevia todos os dias, e contava ao pormenor tudo o que me acontecia e que eu achava importante. E este assunto era, claramente, importante para mim.
Enfim. O tempo passou, as férias de Verão chegaram, deixei de o ver e acabei por me esquecer quase completamente da existência dele, apesar de ainda cruzar os meus pensamentos de vez em quando, ao longo dos anos.
Há uns meses, lembrei-me que um dos pontos positivos do Facebook é permitir-nos encontrar praticamente toda a gente, e ter uma ideia mais ou menos geral do que as pessoas andam a fazer. E eu, porque tenho uma memória de alta qualidade - a sério! - lembro-me perfeitamente do nome completo da pessoa em questão. Pelo que foi fácil encontrá-lo. Adicioná-lo. E é sempre interessante ver um "Gosto" dele de vez em quando.
Ontem fui jantar fora. A um sítio cheio de gente. Imaginem lá o meu espanto quando, sete anos e uns dias depois de o ter visto pela última vez, ele me aparece à frente. E olha para mim com aquele ar de "acho-que-te-conheço-de-algum-lado-mas-não-estou-bem-a-ver-de-onde". Claro que eu não falei com ele. E não lhe ia dizer "olá-sou-aquela-rapariga-que-te-mandou-uma-carta-estúpida-há-sete-anos-atrás-e-a-quem-de-vez-em-quando-pões-"Gosto"-no-Facebook". Simplesmente passei por ele. E ri-me imenso com esta história toda, estas memórias todas. Foi giro.
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