Ontem à noite deu-me uma súbita vontade de voltar ao passado, e como tal fui ler textos antigos meus escritos num caderno que andava sempre comigo - quase um diário... - e que me levaram direitinha ao verão de 2007, onde tudo começou. Na verdade, em retrospectiva, acho que posso mesmo dizer que aquele verão de há seis anos atrás é o primeiro momento para o qual posso apontar e dizer "Foi aqui que a minha vida mudou".
Já não me ponho muitas vezes a pensar nos últimos seis anos, nem naqueles quatro anos e meio em específico, mas a verdade é que ontem me senti a viajar no tempo e acabei por passar o dia todo de hoje a mergulhar, de vez em quando, em recordações, melhores ou piores. E percebi que ainda não sei fazer um balanço final, nem considerar se esses anos foram óptimos ou péssimos, bons ou maus, porque tive de tudo. Como um filme muito, muito longo e complexo, passei por muito... só não tive um final feliz.
Mas não esqueço. E não quero esquecer. E por isso vou fazer minhas as palavras do Miguel Esteves Cardoso naquele texto tão belo - e tão certeiro, sei-o agora, que é "O Primeiro Amor".
« É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.
O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói - porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre de mais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e o deixa estragado.
É como a criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa "Meu Deus! Como pode ser!" do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o "Zing!" inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.
O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar à volta e não se consegue parar. A outra pessoa assalta-nos e deixa-nos tontos, isto apesar de ser tão tímida e inepta como nós. E os nomes dos nossos primeiros amores? Os nomes doem. Parecem minúsculos milagres. Cada vez que se pronunciam, rebenta um pequeno terramoto no equador. E as mãos? Quando a mão entra na de quem se ama e se sente aquele exagero de volts e de pele, a única resposta sensata é o assassínio, o exílio, o suicídio. Nada fica de fora. O mundo é uma conspiração cinzenta de amores em segunda mão. Nada é puro fora daquelas mãos. O tesouro está a arder, as pessoas a morrer, os olhos cheios de luz estão a cegar, mas o primeiro amor é também, e sem dúvida, o primeiro amor do mundo.
O
primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental
para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos
e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. As
outras pessoas - por muito bonitas e fascinantes que sejam - metem-nos nojo. Só
no primeiro amor.
Não
há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o
equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual.
O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos,
uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a
capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor
de poder-mos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde
vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar,
seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três
ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados
de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.
Há
amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça,
amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto,
amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e
debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor
está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido
sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas
cores - o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o
branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as
outras.
Podem
ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não
outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga
de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de
coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para
sair (…). Podem ficar (e que remédio têm) com o savoir-faire e os fait-divers e
o «quero com vista pró mar se ainda houver». Não há paz de alma, nem soalheira
pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única
em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.
Não
há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser
previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não
pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o
primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda
se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz
ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa
vida - e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse
uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma
ressaca. É um misto de «Livra! Ainda bem que já acabou!» e de «Mas o que é
isto? Para onde é que foi?».
Os
outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as
personalidades, são mais construtivos - são tudo aquilo que se quiser. Mas
formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito
diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros,
bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa comprar cortinados. O
primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes - os
primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro
amor acaba separado dos demais. O amor foi a única coisa que os prendeu e o
amor, como toda a gente sabe, não chega para quase nada. É preciso respeito e
bláblá, compreensão mútua e muito bláblá, e até uma certa amizade bláblá. Para
se fazer uma vida a dois que seja recompensadora e sobretudo bláblá, o amor não
chega. Não se vive só dele. Não se come. Não se deixa mobilar. Bláblá e enfim.
Mas é
por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece
impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma.
O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe,
durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.
Afinal
nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de
queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças,
saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e
excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fôssemos para
todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca
mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para
sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas
pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».
É por isso
que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos
caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais
compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo
seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro. »
E como também disse o caro MEC... o amor é fodido.
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