Há textos que pedem para ser escritos - este esteve semanas (meses, talvez) às voltas dentro da minha cabeça. Às vezes faltava-me tempo, outras vezes faltava-me vontade. Na maior parte das vezes, faltava-me coragem - porque escrever é ter de pensar nas coisas e ter de as pôr em palavras torna-as tão mais reais.
Mas hoje sonhei contigo. Um sonho banal, normal, várias pessoas estavam nele... mas estavas tu, também. Não me lembro da última vez que sonhei contigo, mas não foi há muito tempo. Só que neste sonho estávamos iguais ao que éramos. Iguais à foto ali em cima. Sem tirar nem pôr. Foi por isso que este sonho doeu, e foi por isso que acordei a sentir-me feliz só para, trinta segundos depois, ficar mesmo triste ao perceber que não era verdade.
E senti que era hoje que tinha de escrever, que não valia a pena adiar mais. O único problema é que me sentei aqui a olhar para o ecrã e sinto que não sou capaz. Eu, que gosto tanto de escrever sobre, e para, as pessoas... não consigo encontrar o que dizer. Sobretudo porque sinto - sei - que o que quer que escreva vai ser inútil, no entanto não consigo deixar de sentir necessidade, de sentir um peso no peito que não se vai desfazer nunca, mas que se calhar se podia aliviar se eu conseguisse transpô-lo para palavras, nem que fosse só um bocadinho.
Fui ao arquivo do blog - comecei do primeiro post, em 2009, e li, por inteiro ou na diagonal, todos os mil e tal que se lhe seguiram. E encontrei todos os que escrevi para ti ou sobre ti. Estão aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
E depois fiquei a pensar, só isto? Para ti, só cinco textos? Parecia-me impossível. Achava que tinha de ter escrito mais, procurei melhor, mas não.
Depois pensei sobre o assunto e cheguei a uma simples conclusão: nunca escrevi mais sobre ti, porque nunca precisei (até agora). Porque te tinha sempre ali, porque tinha consciência de que sabias o quanto significavas, porque não precisava de pôr nada disso em palavras, de tão forte e seguro que eu sabia que era. Pensava que era. Já nem sei. Mas era. Era forte. Disso não duvido.
Não pretendo desculpabilizar-me de nada. Não é por isso que escrevo. Claro que tive culpa. Claro que ainda tenho culpa todos os dias quando fico a pensar na falta que me fazes e no quanto eu não sou capaz de to dizer.
E este "todos os dias" não é uma expressão à toa - eu penso em ti mesmo todos os dias, e sinto-te a falta neles todos.
Não sou uma coitadinha, não vivo uma vida deprimente. Tenho a minha família e uma quantidade considerável de amigos, alguns mesmo muito próximos sem os quais já não sabia passar.
Mas não tenho uma Bárbara. E nunca mais tive com ninguém a amizade que tinha com a Bárbara, com a minha Bárbara. A minha bride, a minha Barbie. A minha Bárbara, que se sentava ao meu lado nas aulas todas, que passava os intervalos todos comigo. Que se distinguia do resto das pessoas por todas as razões e mais alguma e que me percebia sempre. Que esteve lá em todos os momentos, durante três anos.
Nunca mais tive uma Bárbara e nunca mais vou ter uma Bárbara. Nem quero. Não quero ninguém parecido, porque quero - tenho de - continuar a sentir a falta da minha Bárbara, nem que seja para me lembrar sempre da única coisa de que neste momento me arrependo, que é tê-la deixado partir.
Já passou muito tempo e já não sei porque é que tudo aconteceu, ao certo. Como já disse, não me desculpabilizo. Nem escrevo este texto a tentar vitimizar-me.
Escrevo porque me faz falta. Porque me fazes falta. Tanta. Tanta!
Tenho tantas saudades de quando eu chegava e tu me vias e sorrias logo e me vinhas abraçar. Tenho saudades de quando gozávamos com as mesmas pessoas, quando ríamos das mesmas coisas, quando ouvíamos as mesmas músicas. Quando te ligava e passávamos horas a falar de tudo e de nada. Quando me encorajavas a fazer aquilo que eu não sabia como ou quando me davas na cabeça por eu fazer asneira e cometer os mesmos erros vezes sem conta. Tenho saudades de estar sentada numa aula de Sociologia e o professor olhar para nós e dizer "bolas, as senhoras hoje não se calam!". Tenho saudades de desabafar todos os meus infindáveis problemas contigo, tenho saudades de chorar contigo. Tenho saudades de te ver nas aulas de História. Tenho saudades de ir ver o Eclipse e The Black Swan contigo ao cinema e de passear para o "shopa". Tenho saudades de dizeres que tinhas "caído no amor". Tenho saudades de falar com a She no MSN e de me mandares músicas que eu guardava numa pasta chamada "Bride" (que ainda existe). Tenho saudades de te rires de mim e de me chamares "filhinha". Tenho saudades de quando fomos passar a manhã do Dia dos Namorados de 2011 ao shopping, antes das aulas, porque afinal de contas éramos "brides". Tenho saudades de te referires a ti mesma, e a mim, como "a miúda". Tenho saudades de chamarmos "bois" aos dois... bois que passaram pelas nossas vidas. Tenho saudades de te chatear ao dizer vezes sem conta os apanhados do Youtube. Tenho saudades de te ouvir chamar pelo "Goma". Tenho saudades de quando descobrimos uma carta que não era suposto termos lido e perdemos horas a rir dela. Tenho saudades de odiares quando te mandava corações feitos com "<" e 3. Tenho saudades de tudo. Tenho saudades da minha melhor amiga... ou antes, da melhor amiga que já tive.
« - O burro é o R.?
- É. Passei-me com ele, mas agora já está tudo bem, graças a Deus.
- E a mim, que te lembro que isso são pormenores da tua vida e o que interessa é o nosso grande amor (L)
- Estás muito romântica :o Estivesse eu contigo agora e não seria capaz de resistir a este amor que me consome.
- Consome? Coitadinha. Mas não há necessidade. É um amor eterno e fofo (L) »
« - eu já num te disse que aceito sempre a miúda como ela é? é o amor incondicional »
« Muito amor entre nós, pessoas sensíveis porém não-lésbicas. Até amanhãzinho. Vou dormir o sono. E lembra-te: o amor que eu tenho por ti é muito enorme. »
Como é que algo assim se perde?
Não perde.
Não pode.
Pois não?
Tenho saudades tuas. Não sei outra forma de o dizer.
E só queria poder ter-te de volta.
E esquecer-me dos últimos três anos.
Minha Bride.
I was taking a walk, uh, ah
When I saw you pass by, uh, ah
I though I saw you look in my way
So I thought I'd give it a try
@