Acho que hoje terei dito umas cinquenta vezes, Olha que não quero chegar tarde! Nunca fui muito boa a disfarçar, quando há algo que me está a deixar ansiosa de alguma maneira. Ninguém percebeu porquê tanta vontade de ir para um ensaio... nem quando estava a dias de estrear uma peça a vontade era tanta, a ânsia tão grande.
Cheguei, sentei-me, conversei como sempre com os amigos de sempre. As mãos, apertadas uma contra a outra, a disfarçar os tremeliques de nervosismo. A cabeça, noutro sítio qualquer. Onde está, onde está, onde está. As borboletas esvoaçavam no estômago num frenesim de loucura.
Bem, vamos começar. Quem se atrasou vem cá ter. Desci as escadas, mudei de roupa, entretanto conversei sobre o presente e o futuro tão distante e tão indistinto. Encostei-me à parede. E ouvi passos. É agora. Boa noite a todos!
Não sabia o que fazer. Estava estranho e distante. Nem um sorriso. Ai... não... E depois, não me consigo lembrar do que foi dito. Sei que alguém fez um comentário e eu mandei uma boca. E de repente fui puxada para um abraço repentino e tão inesperado quanto bom. Bom? Óptimo.
Vamos circular! Vamos, então. E olhar para todos os lados com medo de, sequer, cruzar olhares. Agora vamos aperceber-nos das pessoas que estão à nossa volta... Vamos, então. E olhar a medo, com medo do que se ia descobrir no outro olhar. Agora vamos cumprimentar quem passa por nós. Vamos, então. E olhar a medo, e receber o primeiro sorriso, só meu. E agora vamos abraçar quem passa por nós. Vamos, então. E ter medo de o abraçar. E receber um abraço tão apertado. E tão apertado quanto bom. Bom? Óptimo!
Mais exercícios trouxeram mais distância. E as circunstâncias da peça fizeram com que tivesse de o ver de mãos dadas com outra pessoa. Ciuminho, dizia a minha consciência. E eu tentava calá-la. Não posso ter ciúmes. Nem sequer posso sentir nada do que estou a sentir. Respira fundo, dizia a consciência, Não mandas em nada disto.
Mais exercícios. Deitar no chão em roda. O destino - ou a minha subtileza que desconfio ter sido muito pouco subtil... - fizeram com que ficássemos ao lado um do outro. Vá, dêem as mãos para sentirem melhor a energia uns dos outros. Pousei a minha mão. Sempre com medo. E os dedos entrelaçaram-se naturalmente, e o calor que me subiu pelo braço assustou-me até a mim mesma. Não posso sentir nada disto. Não posso.
Uns minutos, que pareceram anos, depois, Muito bem. Vamos passar às cenas. Mais distância. Sentei-me no chão, com o meu texto, o meu caderno, uma caneta para tirar apontamentos e para entreter as mãos e o nervosismo. Estava longe, sentado numa cadeira, a fazer o papel dele. Mas em cada pausa... não sei se era eu a olhar primeiro e ele a apanhar-me, ou o contrário. Houve de tudo. E de cada vez que isso acontecia, um de nós fugia e olhava para outro sítio qualquer. Vergonha ou medo ou um misto de ambos e de tudo, não sei. Mas não conseguia interpretar os olhares, não conseguia interpretar as expressões. Achei sinceramente que ia voltar para casa ainda mais confusa do que tinha ido.
Uma cena mais querida, comentários de todos os lados. Quase me dá vontade de me apaixonar!, disse eu para a C. Não estás apaixonada?, perguntou ela. Não, neste momento não. Nem quero., respondi eu, cautelosa. Foi uma mentira, provavelmente. Mas também foi um bocadinho verdade. Estava demasiado confusa para saber. Oh, não digas isso!, disse a C. Porque é que não queres?, perguntou a A. Sinto-me sempre tão bem a falar com elas, apesar de nove anos nos separarem e de não lhes poder nem querer contar o que me atormenta. Apesar de elas já terem vivido isto tudo e de provavelmente me perceberem, não sou capaz. Oh, estou traumatizada. O último foi mau de mais, preciso de uma desintoxicação., digo eu, rindo. Ui, então prepara-te, está para acontecer. Ele anda por aí e tu nem sabes!, diz a A. Fico à espera de corar, mas não. Provavelmente porque sinto que ela tem razão. Só que se calhar eu já sei. Ai!
Cena para a frente, cena para trás, retoque aqui, mudança ali. Uma cena muito mal escrita. Não fui eu que escrevi esta!, reclamo eu. Mas vou ser eu a escrevê-la de novo e isso deixa-me feliz. E depois aparece lá: texto de Inês Barbosa! A nossa escritora!, diz a C. e eu sorrio. Muito. Sabe tão bem saber que as pessoas apreciam o meu trabalho, e um trabalho que não dá qualquer trabalho, porque é a minha paixão de sempre. Cena para a frente, cena para trás, umas bocas - mas das boas! - bem mandadas e melhor recebidas, sorrisos e olhares. Fiquei um bocadinho triste porque o ensaio estava a acabar e eu ia continuar sem me resolver. Bom, hoje ficamos por aqui, é meia noite menos dez. Não! É demasiado cedo!
Sentei-me e decidi que era o momento de puxar conversa. E assim fiz. E o resto... o resto fica para mim, guardadinho no coração com muito, muito carinho. Tanto calor. E tanta felicidade. Nem me lembrei que estava nervosa. Nem me lembrei que havia gente à minha volta. Gente que provavelmente estava atenta a tudo. Mas eu não quis saber.
Hora de ir embora. E por centímetros - milímetros? - evitei uma coisa que não queria ter evitado. E quando entrei no carro, o meu coração queria explodir e saltar-me pela boca fora. Até sexta...
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