Acho que, de cada vez que nos apaixonamos, sentimos que é a primeira vez. Não interessa quantas pessoas passaram antes pela nossa vida, não interessa a quantas pessoas nos entregámos, não interessa o que partilhámos com elas. Quando nos apaixonamos a sério - porque, se há amor, se há paixão, tem de ser a sério - nada disso interessa, porque é como se estivéssemos a viver tudo de novo pela primeiríssima vez.
E só assim faz sentido. Porque nós nunca nos apaixonamos duas vezes pela mesma pessoa, bem vistas as coisas. Ainda que nos voltemos a apaixonar por uma pessoa que já tínhamos amado antes (e eu sei do que falo, porque já passei por isso), nunca é a mesma coisa - ou a pessoa está diferente, ou nós próprios estamos diferentes... seja como for, não é a mesma coisa.
Mas se nos apaixonamos sempre de forma diferente e sempre por pessoas diferentes, se aquilo que sentimos nunca se repete por mais que possa parecer que sim... então porque é que insistimos em falar do "amor da nossa vida"?
Em toda a minha vida, já estive perdidamente apaixonada por duas pessoas. Só duas. E a ambas disse que eram o amor da minha vida... porque eram. Eram mesmo.
A primeira pessoa foi o meu primeiro amor, aquele que é completamente parvo e completamente louco, aquele que arrasa tudo em nós, que leva tudo o que há para levar de dentro de nós e aquele por quem nós seríamos capazes de dar tudo. É a primeira de todas as primeiras vezes que vamos ter na vida, por isso só é normal que achemos que nunca mais vai haver ninguém igual. O primeiro amor é o primeiro de todos. É, de factor, o amor da nossa vida. E foi o meu.
Mas depois... alguns anos mais tarde, voltei a apaixonar-me perdidamente. Por uma pessoa completamente diferente da primeira, que me tratava de forma completamente diferente da primeira e com quem escrevi uma história completamente diferente da primeira. Ter estado com essa pessoa fez-me perceber que o primeiro amor era só mesmo o primeiro, mas não o único. Fez-me perceber que havia mais, e sobretudo melhor, do que aquilo que eu já tinha experimentado. Seis anos depois do meu primeiro amor, tive outro amor igualmente grandioso, igualmente inesquecível. E foi o amor da minha vida. Mas também acabou.
Houve alturas da minha vida em que achei que era espectacularmente romântico que houvesse um amor na minha vida, só um. Se calhar, se tivesse ficado para sempre com a primeira pessoa que amei, ainda hoje acharia bela essa ideia, como romântica incurável que sou. Mas hoje, depois de tanto, depois de tudo?
Hoje acredito plenamente que não é assim. Todos os amores que temos são o amor da nossa vida enquanto os estamos a viver. É mais que natural que assim seja - diria mesmo mais, só seria errado se não achássemos que eles eram o amor da nossa vida enquanto os estivéssemos a viver. Porque se estivéssemos com uma pessoa, mas a achar que ia aparecer uma muito melhor um dia destes, qual era o sentido dessa relação? Não. O amor não é assim.
O amor a sério é tão avassalador que não deixa espaço para mais nenhum - nem antes, nem depois, nem nunca. Só existe ele, ele e ele. É o amor da nossa vida naquele momento e enquanto durar, e vai ser sempre o amor da nossa vida... daquela altura em particular da nossa vida.
Não vale a pena procurá-lo. Ele aparece. E nós também somos o amor da vida dele. Porque o amor é assim - tão complicado, mas ao mesmo tempo tão simples quanto isso.
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