Faz-me muita falta - cada vez mais falta.
Tenho saudades de vestir os meus maillots justinhos, as collants macias, os casaquinho de malha ou os saiotes leves, de me sentar no chão a apertar as fitas de cetim cor de rosa das minhas sabrinas beges, de ficar tempos infinitos em frente ao espelho a prender o cabelo num puxo apertados, com rede e fita e ganchos e gel e tudo o mais que fosse preciso +ara que nem um cabelinho saísse do seu lugar.
Tenho muitas saudades daquela sensação maravilhosa de estar a fazer algo que de facto sabia fazer, aquela sensação de estar no lugar certo para mim, quando fazia pliés, demi pliés e grand pliés, pas-de-chats, pas-de-bourrées, elevés, battements, grand battements e battement tendus, arabesques e rond de jambes, developpés e enveloppés. E daquela sensação ainda mais fantástica, de liberdade, ao voar através da sala, com os meus grand jetés, os soutenus, os piqués, as pirouettes e todas as outras sequências intermináveis nas quais passávamos por todas as posições de pés e de braços.
Quando aprendi a fazer ponta, foi uma das melhores sensações de sempre. E quem não faz, e nunca fez, ballet, não consegue perceber na totalidade o quão gratificante é conseguir, ao fim de muitas e muitas aulas, equilibrar-me, andar, saltar, fazer piruetas, enfim, dançar, em cima das minhas pontas. É uma sensação poderosa - e são a leveza, a elegância, a fragilidade, que nós dão poder, quando estamos lá em cima. É necessário saber vergar-nos, apenas o suficiente, ser flexível e combinar o que sabemos com o que sentimos. A fragilidade é, no entanto, meramente aparente; para conseguir a (quase) perfeição, é necessária muita foça... e quase toda ela é força de vontade.
Porque, mesmo que não pareça, é extremamente esgotante, quer para o corpo, quer para a mente, repetir os mesmos exercícios, aula após aula após aula após aula, até estarem tão perfeitamente "dentro" de nós que já os executamos quase sem termos de pensar sobre eles. Não, não somos máquinas quando dançamos; é importante deixar todos os problemas, todas as perturbações, fora da sala de ensaio, mas é mil vezes mais importante amar, amar mesmo, o que se está ali a fazer, porque é essa paixão que tem de transparecer na dança, é essa emoção que vai fazer do nosso trabalho algo digno e único, algo pelo qual vale a pena lutar, algo que merece ser apreciado, por nós e por todos. Sempre acreditei que o amor nos dá força, e o amor pelo ballet sempre me deu a força para querer mais e mais e mais e lutar por isso.
Lamento, hoje em dia, que a inocência dos meus doze anos não me tenha deixado ser ainda mais forte. Lamento não ter sido capaz de bater o pé e suportar tantos gritos (e quase todos imerecidos), tantas ordens, tanta má disposição, tanta disciplina exagerada. Mas após dez anos a praticar a mesma coisa, três vezes por semana, claro que cheguei a um ponto de exaustão total. Tinha treze anos e já não dançava por prazer, mas por obrigação - e esse é o pior erro de quem quer que aspire a ser bailarino. Se tivesse sido um pouco mais velha, talvez agora não estivesse a acabar o meu 12º ano no lugar onde estou, talvez não tivesse o sonho de seguir Comunicação Social que tenho hoje; talvez estivesse bem longe daqui, a fazer da dança o alimento de todos os meus dias.
Não vou esquecer-me de nada disto, no entanto, mesmo que agora já não possa voltar atrás e reviver, viver melhor. Não vou esquecer-me de toda a preparação intensiva antes de um espectáculo, e do grande dia finalmente a chegar. Nem dos ensaios gerais e das horas que antecediam a entrada no palco, as luzes douradas dos camarins, os ramos de flores por toda a parte, a nuvem de pó-de-arroz e purpurinas em que sempre me envolviam, o quanto me sentia uma princesinha dentro dos meus belos fatos.E depois a música a tocar, as cortinas a abrir, as luzes da ribalta. Dançar para uma plateia cheia de gente e não conseguir vê-los, na escurodão, mas sentir a presença deles, a vibrar connosco, a sentir o que dançávamos enquanto nós dançávamos o que sentíamos. E no fim, após ultrapassar os nervos e fazer um bom trabalho, depois de viver todos aqueles momentos de grandeza, vinha a recompensa: não só a auto-satisfação, mas também as palmas, os gritos de parabéns, as felicitações. Acreditem ou não, uma mera salva de palmas fazia milagres pela nossa auto-estima, e de todas as vezes as lágrimas vieram-me aos olhos. E não tinha, sequer, treze anos - o que me leva a pensar como seria tudo isto hoje em dia, que estou muito mais "em contacto" com as minhas próprias emoções.
Acredito que dez anos de ballet, dos três aos treze, contribuíram imensamente para a formação da minha personalidade tal como ela é, hoje, para os meus gostos, para vários dos meus hábitos, até para a forma como lido com várias situações, em termos físicos... e sobretudo ensinaram-me a olhar para a vida de outra forma. Talvez para muitos não faça sentido, mas a verdae é que, quase todos os dias, consigo verificar pequenos "vestígios" daquilo que o ballet deixou na minha vida; seja no modo como procuro levar o meu corpo ao limite, por mais que custe, seja nas dificuldades que encontro ao tentar dançar outros estilos de dança, porque o meu corpo fica rígido e os meus ombros não querem estar senão direitos e fixos no seu lugar; seja nos meus próprios pés, cujos dedos ficarão para sempre marcados pelos meses passados a fazer pontas.
É amor. Amor pelo ballet e pela dança em geral, amor pela música clássica, pelos fatos e as sabrinas... tudo, tudo aquilo que se relacione com ballet é motivo de interesse para mim. Amo. E é mais um amor que me vai ficar para sempre.
P.S - Escrevi este texto às 8h30 de hoje, na aula de Psicologia, simplesmente porque senti uma súbita vontade que não pude contornar. E depois olhei para a data e lembrei-me: é Dia Mundial da Dança! Coincidências... ou talvez não :)
@

2 comentários:
Revejo-me em tudo o que dizes, Inês :D
ainda bem :)
Enviar um comentário