Pode parecer estúpido, mas uma das razões pelas quais gosto tanto de ler, é que nos (bons) livros que leio, aprendo sempre mais alguma coisa, de cada vez que os leio e/ou releio. Hoje, no livro que estou a ler, encontrei uma crónica que me vejo obrigada a considerar uma verdadeira preciosidade.
« Em Portugal, a amizade entre pessoas de sexos opostos (ou sexualidades opostas) é sempre muito problemática, dada a chamada "cultura vigente". A "cultura vigente" é dominada pelo Factor SPAC, que influencia todas as relações entre homens e mulheres. O factor SPAC (que significa, em repreensível português, "Salto Para A Cueca") está sempre presente. É a mulher que repara que o seu grande amigo está disposto a discutir todos os problemas dela com a maior paciência e compreensão, mas que começa a arroxar e a esverdear, a puxar o lustro à cadeira com o rabo, sempre que ela lhe revela estar muito feliz com um novo amor. Ou (pior ainda) com um velho. Se o amigalhaço suporta a miséria mais camiliana com um sorriso, mas não aguenta a mínima menção de alegria, se ajuda muito nos dissabores e desamores mas empata ainda mais nos sabores e amores, levanta-se no espírito da mulher, legitimamente ou não, o factor SPAC. E ela interroga-se: "Se calhar este também me quer Saltar Para A Cueca?" E se calhar quer. Se isto é ou não um crime, é o que se vai ver. (...) A amizade entre homens e mulheres pode chamar-se isenta de factor SPAC quando se fala livremente, como os amigos falam, de terceiros amores. Se uma rapariga se sente à vontade para chegar ao pé de um rapaz e dizer "Ó pá! Sabes o que me aconteceu? Apaixonei-me! Não é porreiro?", e se o rapaz acha que sim, que é bastante porreiro, então pode dizer-se que o factor SPAC está de férias. (...) Como as mulheres são diferentes dos homens (por exemplo, os segundos sentem-se mais obrigados a tentar SPAC das primeiras do que as primeiras PAC dos segundos), é natural que essa diferença se faça sentir nas relações de amizade. (...) O trabalho de amizade de uma mulher nunca é levado a mal pelo homem (é levado por outras mulheres; mas essa é outra história). Em contrapartida, o trabalho do homem é sempre posto em causa. E muito bem posto, aliás. (...) Resumindo: para as mulheres, como amigas de homens, é "amizade, amizade, amores à parte", enquanto para os homens é mais "amizade, amizade, e uns amores à parte, se puder ser, se faz favor, senão também não faz mal". »
Ora, depois de lido, quem tem estado por dentro da minha vida e das suas confusões nos últimos dois dias, não concorda comigo quando eu digo que isto não podia ter surgido numa altura mais adequada?
Só me resta dizer: obrigada, Miguel Esteves Cardoso, por não me desiludires uma vez mais!
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