domingo, 6 de junho de 2010


Há pessoas que nos marcam inacreditavelmente, pelos mais diversos motivos. A mim, costumam marcar-me sobretudo aqueles de quem gosto. E aqueles que, conscientemente ou não, me ensinam alguma coisa (útil). E que me apoiam e me fazem sentir segura e confiante e com vontade de lutar (por aquilo que quero).
Há exactamente dois anos, dia 6 de Junho de 2008, foi o último dia de aulas do meu nono ano. Foi um dia terrível, cheio de lágrimas e de confusões - porque tinha a melhor turma possível e imaginária e éramos todos uns lamechas, diga-se de passagem. Houve aulas que custaram mais a deixar para trás, houve professores que não queríamos abandonar porque nos seguravam sempre que era preciso - e toda a gente sabia que, para mim, o prof. de Português ia ser a pessoa mais difícil de deixar.
A aula começou às 10h15 daquela sexta feira e estivemos sempre a conversar e a andar de um lado para o outro, a recordar velhos momentos e a tentar rir sempre, para não estragar os últimos momentos com mais lágrimas inúteis. Fizemos as parvoíces de sempre e dissemos tudo aquilo que nunca tínhamos tido coragem de (lhe) dizer até àquele momento. E depois, a campainha tocou às 11h45 e foi uma confusão de abraços. Toda a gente saiu silenciosamente e devagar... lembro-me tão bem! Parecia que nenhum de nós queria pôr fim àquelas (fantásticas) aulas de Português.
Mas eu, atrasada como sempre, não saí logo, fiquei a arrumar qualquer coisa na mochila. E ele chegou à minha beira e disse-me 'Tenho uma coisa para ti, não te quis dar antes porque não tenho para todos... e acho que nem todos merecem!'. Claro que fiquei curiosa, e foi aí que ele tirou um pequeno livrinho branco da pasta e me o entregou - "APRESENTAÇÃO DE CONTAS: balanço nocturno", por José Carlos Sendim. Primeiro choque - é que nem sabia que tinha escrito um livro!
Folheei. Pequenos poemas. Abri a primeira página. Segundo choque - uma dedicatória. 'Para a Inês, como paga pelas "maldades" feitas ao longo de dois anos... Agora espero pela retribuição. José Carlos Sendim'
Retribuição, stôr? 'Sim, o livro que tu vais escrever um dia destes.' Oh, acha? Também eu queria... mas não, não tenho capacidade. 'Se houve coisa que me provaste nestes dois anos, é que és capaz disso e muito mais. E eu acredito em ti. Já é alguma coisa, ou não?' Terceiro choque - fiquei sem palavras (é raro), abracei-o, chorei. (Claro, ou não fosse eu uma chorona...) E tentei ser forte e acreditar, também, em mim. 'Promete-me que vais lutar por isso.' Prometo. Virei costas e vinha a sair da sala, e ele ainda gritou 'E diz olá ao Tátá por mim!' Caramba. Tatá, o famoso 'pássaro' que tinha feito de mim objecto de gozo o ano inteiro. É claro que não podia faltar naquele (último) momento...

Passaram-se dois anos e hoje, reli o livrinho todo, para aí pela quinta ou sexta vez. E acho que só hoje consegui mesmo perceber alguns dos poemas. Ou então identifico-me mais com eles, agora, do que dantes.
As saudades são muitas, como sempre. JCS «3

« ANEXO 4:

podes sempre dizer que essa coisa
dos afectos
é como papel de celofane:
trata-se de dar um pouco de cor
à transparência.

Mas sabes que são apenas
pontos de luz
num circuito que tem por pólos
o desejo, o medo. »

( este sempre foi o meu preferido. afectos. hoje os meus estão... em trapos. )

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